Palantir tem £330 milhões em contratos com o NHS. Deve a Grã-Bretanha estar preocupada?
Uma empresa de defesa e vigilância dos EUA tornou-se discretamente um dos maiores fornecedores de tecnologia do Estado britânico. Eis o que isso significa para pacientes, contribuintes e dados públicos.

Pontos-chave
- Palantir, uma empresa norte-americana de defesa e análise de dados, detém um contrato de £330 milhões com o NHS em Inglaterra.
- A comissão de ciência, inovação e tecnologia do Parlamento britânico afirmou em 2024 que o governo deveria terminar a sua relação com a Palantir, citando um "desajuste claro com os valores do Reino Unido".
- Peter Thiel e Alex Karp co-fundaram a Palantir; a empresa construiu a sua reputação em contratos de vigilância e inteligência com o exército e agências de segurança dos EUA.
- Andy Burnham, apontado como futuro candidato à liderança do Partido Trabalhista, enfrenta pressão de colegas para rever os contratos públicos britânicos com a empresa.
- Os defensores do acordo, incluindo um antigo conselheiro conservador escrevendo no Financial Times, argumentam que o único teste que importa é se a tecnologia funciona.
Palantir não é um nome conhecido do público em geral. Mas se recentemente utilizou o NHS, esta empresa provavelmente acedeu aos seus dados.
A empresa, fundada pelo multimilionário Peter Thiel e pelo director executivo Alex Karp, construiu a sua fortuna vendendo software de análise de dados, software que recolhe volumes enormes de informação e identifica padrões, para o exército dos EUA e agências de inteligência. É agora um dos maiores fornecedores de tecnologia do Estado britânico, com contratos que abrangem defesa, imigração e saúde.
O maior contrato é um acordo de £330 milhões com o NHS England. Este valor, pago com dinheiro público, adquire a Federated Data Platform da Palantir, um sistema que reúne registos de pacientes de diferentes hospitais para que médicos e gestores os possam consultar num único local. O objectivo prático é sensato: reduzir listas de espera tornando mais rápido o fluxo de informação.
Qual é então a preocupação?
Os críticos apontam para duas coisas. Primeiro, quem é a Palantir. O negócio central da empresa sempre foi vigilância. As suas ferramentas têm sido utilizadas para rastrear migrantes, atingir alvos militares e monitorizar protestos. A própria comissão de ciência, inovação e tecnologia do Parlamento alertou no ano passado que o histórico de Palantir representa um "desajuste claro com os valores do Reino Unido".
Segundo, como os contratos foram ganhos. Investigações jornalísticas, incluindo trabalho assinalado pelo The Guardian, levantam questões sobre se o acesso político pago ajudou a Palantir a enraizar-se em Whitehall antes de as regras adequadas de contratação pública poderem acompanhar.
Devem os pacientes do NHS estar preocupados com os seus dados?
A resposta honesta é: não sabemos o suficiente. O NHS diz que os dados dentro da plataforma permanecem sob controlo do NHS e não podem ser vendidos ou partilhados com os outros clientes da Palantir. Especialistas independentes argumentam que as protecções contratuais são reais mas a supervisão é fraca. Se a empresa fosse alguma vez vendida, sancionada ou hackeada, essas protecções enfrentariam um teste sério.
Por enquanto, os seus registos do médico de família não estão directamente dentro da plataforma. Os dados operacionais do hospital, coisas como disponibilidade de camas e tempos de espera, constituem a maior parte do que flui através dela.
A pressão política é real e crescente. Vários deputados trabalhistas querem que o contrato seja revisto. O contra-argumento, feito claramente no Financial Times pela antiga conselheira conservadora Camilla Cavendish, é directo: se reduz listas de espera, use-se.
Ambas as posições merecem respeito. A tecnologia pode muito bem funcionar. Funcionar bem e ser o parceiro certo a longo prazo para um sistema de saúde pública são questões diferentes.
A única conclusão honesta: se quer saber que dados o NHS detém sobre si e como são partilhados, pode solicitar essa informação directamente ao seu consultório de médico de família ou ao hospital sob a lei de protecção de dados do Reino Unido. Não custa nada e requer apenas uma carta.



