O Chatbot Original Tinha Muitos Rostos, e Nunca Soubemos

ELIZA, o programa dos anos 1960 que convenceu as pessoas de que um computador as entendia, revelou-se ser muito mais estranho e capaz do que alguém imaginava. Código-fonte recentemente descoberto muda a história.

AI2Day Newsdesk· 3 min read
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Pontos-chave

  • ELIZA, criada por Joseph Weizenbaum e publicada em janeiro de 1966, é amplamente considerada o primeiro chatbot do mundo.
  • Investigadores encontraram o código-fonte original de ELIZA guardado intacto nos arquivos do MIT, anos depois de reconstruções baseadas apenas em descrições publicadas se terem tornado standard.
  • O código revela que ELIZA não era um único programa, mas uma plataforma que podia executar múltiplas personas distintas, ou "scripts", cobrindo tópicos que iam da poesia a elevadores até ao francês.
  • Um novo livro, Inventing ELIZA: How the First Chatbot Shaped the Future of AI, publicado pela MIT Press em 2026, detalha a descoberta e permite aos leitores experimentar uma emulação funcional do original.
  • A lacuna entre o que Weizenbaum publicou sobre ELIZA e o que o código realmente faz espelha uma tensão que ainda percorre o desenvolvimento de IA nos dias de hoje.

Imagine um programa de computador de 1966 que conseguisse manter uma conversa. Não uma troca tosca de sim/não. Uma verdadeira interação, em que a máquina fazia perguntas de seguimento e parecia realmente ouvir.

Esse programa era ELIZA, e surpreendeu toda a gente que o conheceu.

O seu criador, o informático do MIT Joseph Weizenbaum, construiu-o como uma experiência. Os utilizadores escreviam as suas preocupações, e ELIZA respondia no estilo gentil e questionador de um terapeuta. As pessoas acharam-no tão convincente que partilharam sentimentos reais com ele. Alguns acreditavam que a entendia. Weizenbaum ficou alarmado com a sua própria criação.

O fenómeno ganhou um nome: o efeito ELIZA, a tendência de assumir que um computador tem sentimentos genuínos ou compreensão quando está simplesmente a seguir regras.

Eis a surpresa. Durante sessenta anos, ninguém estava a trabalhar com o código real. Os investigadores reconstruíram ELIZA a partir do artigo publicado por Weizenbaum em 1966 na revista Communications of the ACM (Association for Computing Machinery, um organismo profissional importante para informáticos). Esse artigo, com apenas dez páginas, deixou de fora detalhes essenciais.

O código-fonte real estava nos arquivos do MIT até muito recentemente.

Quando os investigadores finalmente o encontraram, descobriram algo surpreendente. ELIZA não era um programa único. Era uma plataforma, uma espécie de motor que podia executar diferentes "scripts", cada um dando ao sistema uma persona completamente diferente.

O famoso personagem terapeuta? Era apenas um script, chamado Doctor. Weizenbaum escolheu a psiquiatria como persona porque um terapeuta pode plausivamente saber quase nada sobre a sua vida real e ainda assim manter uma conversa. Era um contorno inteligente para as limitações do programa, não uma declaração sobre saúde mental.

Outros scripts permitiam ao ELIZA discutir matemática, poesia, cor, paradoxos, relatividade, França e, brilhantemente, elevadores.

Conforme foi reportado em primeiro lugar pela IEEE Spectrum AI, o novo livro Inventing ELIZA enquadra isto como um ponto de viragem genuíno na compreensão da história da computação primitiva. O código mostra que ELIZA tinha memória contextual, a capacidade de rastrear partes anteriores de uma conversa, e funcionalidades de edição de scripts que ninguém conhecia.

Isto importa para a IA moderna?

Sim, mais do que pode parecer. A escolha de design de separar o motor ELIZA dos seus scripts, mantendo as regras para a conversa num ficheiro intercambiável em vez de incorporadas no programa em si, antecipou diretamente a forma como os chatbots de IA modernos funcionam. Os sistemas atuais, desde bots de atendimento ao cliente até assistentes de voz, executam diferentes "personas" sobre modelos subjacentes partilhados. ELIZA fez-o primeiro.

A lacuna entre a descrição publicada e o código real também é reveladora. Weizenbaum explicou parte do que ELIZA fazia, mas não tudo. Essa distância entre a teoria e a implementação real, entre o que os programadores dizem que um sistema faz e o que o código realmente faz, é uma questão atual em IA.

Para utilizadores comuns, a lição é mais simples. O programa que fez milhões de pessoas se sentirem ouvidas era sempre mais complicado, e mais limitado, do que parecia. Isso continua a ser verdade dos chatbots no seu telefone.

ELIZA nunca compreendeu uma palavra do que ninguém disse. Apenas sabia como fazê-lo sentir que tinha compreendido.

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